Nadando pelado – Por Marcelo Carvalho

  1. Home
  2. /
  3. Noticias
  4. /
  5. Nadando pelado – Por...

Por muito tempo, os barquinhos dos mercados emergentes vinham subindo na maré alta da economia global. Os preços das commodities não paravam de subir, a economia chinesa crescia forte e jorrava liquidez nos mercados internacionais, bombeada pelos bancos centrais de economias avançadas. Não mais. Agora, estamos vendo nuvens de uma tempestade perfeita se formando no horizonte para os mercados emergentes, com queda no preço de commodities, China azedando e o banco central americano reduzindo seu estímulo monetário.

Quando a maré baixa é que se vê quem estava nadando pelado. O Brasil pode ser famoso no exterior por suas sungas e biquínis mínimos, mas sua política macroeconômica recente tem nos deixado expostos.

A verdade é que o nervosismo global está revelando (e piorando) fundamentos que já vinham se deteriorando há algum tempo em países como o Brasil. O importante agora é se adaptar rapidamente às novas circunstâncias e dar a resposta macroeconômica correta. Fingir-se de morto e insistir no plano anterior pode até parecer uma estratégia tentadora no curto prazo, mas seria um grande equívoco. O Banco Central (BC) vem subindo as taxas de juro, forçado pela alta inflação, mas o governo precisa demonstrar uma estratégia fiscal convincente.

Importante agora é se adaptar às novas circunstâncias e dar a resposta macroeconômica correta

A reação inicial à turbulência externa, por exemplo, deixou a desejar. Na mesma semana em que ameaçou esboçar um maior comprometimento com uma meta fiscal, o governo anunciou um plano de empréstimos subsidiados para a compra de eletrodomésticos no programa Minha Casa Minha Vida. A iniciativa pode ter boas intenções, mas joga mais combustível na fogueira da inflação, e tem um custo fiscal.

Quanto à taxa de câmbio, o governo está agora desmantelando restrições que tinha antes colocado sobre a entrada de capital estrangeiro. Infelizmente, a súbita mudança de opinião parece ser mais uma reação instintiva ao recente enfraquecimento da moeda em vez de refletir uma flexibilização bem planejada para estabelecer políticas mais pró-mercado. Na verdade, não faz muito tempo que o governo reclamava da chamada “guerra cambial”. O banco central dos EUA estava bombeando liquidez nos mercados globais por meio de seu programa de expansão monetária, indevidamente valorizando as moedas de mercados emergentes como o real, corroendo a competitividade comercial desses países e minando sua indústria. Ou assim argumentava o governo brasileiro.

Quando, lá atrás, o Brasil introduziu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre os fluxos de capital estrangeiro vindos ao Brasil, o governo parecia preocupado que muito de uma coisa boa (fluxos de entrada de capital) podia se tornar uma coisa ruim. Enquanto recebia com os braços abertos fluxos externos de investimento direto, de longo prazo, o governo parecia ter aversão a fluxos internacionais “especulativos”, de curto prazo.

Isso foi antes. Agora, o quadro de fluxos de capitais tem mudado dramaticamente, tanto globalmente quanto no Brasil. A sinalização de que o banco central dos EUA pode reduzir seu programa de estímulo monetário está mudando rapidamente a paisagem global nos mercados de câmbio. Quanto ao Brasil, a percepção internacional tem sido de piora significativa de nossos fundamentos econômicos.

A remoção de restrições nos fluxos de capital, e a intervenção do BC no mercado de câmbio, podem proporcionar alívio a curto prazo. Mas, no longo prazo, prevalecem os fundamentos. E estes já não parecem tão atrativos no caso do Brasil hoje. Já se foram os tempos áureos de preços de commodities em expansão vertiginosa na esteira do rápido crescimento na China. E os dias de dinheiro abundante e barato no mundo estão contados, agora que o banco central americano caminha para reduzir seu programa de estímulo monetário.

Sem correção de rumo, as implicações de tudo isso para o Brasil são claras: prêmios de risco mais altos (e, eventualmente, um rebaixamento de nossa nota de crédito soberano pelas agências de classificação de risco), taxa de câmbio mais desvalorizada e inflação mais alta, forçando o BC a fazer mais do que o planejado inicialmente. Agora que a abundância de liquidez global começa a ser questionada, a economia chinesa fraqueja, e investidores temem que o rei esteja nu, não há como voltar atrás.

Turbulências podem se tornar um mal que vem para o bem, se levarem de fato a uma mudança crível rumo a políticas macroeconômicas melhores, especialmente na área fiscal. Estamos assistindo uma mudança de maré nas condições globais para mercados emergentes como o Brasil. É hora de se recompor. Mergulhar pelado pode ser divertido, mas, quando a maré baixa, não há onde se esconder.

Marcelo Carvalho é economista-chefe para a América Latina do Banco BNP Paribas

Valor Econômico

Baixe grátis nossos E-books:

Nosso curso de Spread está com a turma lotada!

Estamos nos organizando para conseguir atender todos os alunos com excelência. Deixe seu e-mail que em breve vamos abrir uma nova turma e te avisaremos

Nosso curso MasterClass está com a turma lotada!

Estamos nos organizando para conseguir atender todos os alunos com excelência. Deixe seu e-mail que em breve vamos abrir uma nova turma e te avisaremos

Nosso curso de Análise Gráfica e Técnica está com a turma lotada!

Estamos nos organizando para conseguir atender todos os alunos com excelência. Deixe seu e-mail que em breve vamos abrir uma nova turma e te avisaremos