Oportunidade desperdiçada
“Estamos perdendo uma grande oportunidade”, diz Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Aprosoja Brasil, associação que representa os produtores de soja.
Ricardo Arioli, produtor no estado de Mato Grosso, o coração da soja no País, congelou as vendas antecipadas de sua colheita na safra 2018-2019 semanas atrás e, até o momento, vendeu apenas 8 por cento dessa safra. Nesta época do ano passado, ele já havia vendido 40 por cento da safra futura.
“Ninguém quer comprar nem vender. Estamos esperando uma solução para a tabela de fretes”, disse Arioli, de 58 anos.
A regra do custo mínimo de frete foi implementada no final de maio na tentativa de apaziguar os caminhoneiros que fizeram uma greve nacional para protestar contra o aumento de custo do combustível. A greve durou 10 dias, tempo suficiente para causar a maior queda de um mês no indicador de atividade econômica do Brasil desde pelo menos 2003. Ironicamente, os agricultores originalmente apoiaram a greve, porque achavam que ela conseguiria reduzir os preços do combustível. Ninguém imaginava que a solução do governo passaria também por um aumento obrigatório nos custos de frete.
Conta
Os agricultores estão arcando com as despesas adicionais porque as tradings que compram dos fazendeiros e exportam a safra geralmente descontam os custos de frete dos preços pagos aos produtores.
O congelamento das vendas realizado pelos produtores ainda não está causando muito impacto nas tradings, que estão exportando de estoques armazenados. Isso significa que o intermediário está colhendo a maior parte da riqueza à medida que os prêmios da soja nacional aumentam com a forte demanda chinesa.
“O produtor é quem vai pagar essa conta”, disse Arioli. “Eu tenho certeza disso.”
Para aumentar a confusão: vários grupos industriais e agrícolas contestaram as novas leis de frete no Supremo Tribunal Federal, aumentando a imprevisibilidade em relação aos custos futuros de transporte. A venda de grãos praticamente parou devido à falta de clareza sobre o tema.
“Os prêmios e a taxa de câmbio estão a nosso favor”, disse Pereira. “Seria uma grande oportunidade de fazer grandes negócios, mas isso não está acontecendo por causa da imprevisibilidade envolvendo a questão dos fretes.”
A indefinição também pode afetar a produção na próxima safra. O aumento no custo de transportes resultou em uma alta nos preços dos fertilizantes e praticamente paralisou as entregas do insumo aos produtores e revendas. Com isso, os agricultores podem ser obrigados a adiar o plantio de soja ou reduzir a aplicação de fertilizantes, prejudicando o potencial produtivo da próxima safra, segundo o presidente da Aprosoja.
“Esses problemas internos estão nos impedindo de aproveitar a briga entre a China e os EUA”, disse Pereira, que também é produtor no estado de Goiás.

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