Produtores da Rússia que carregam uma dívida de quase 50 bilhões de dólares terão problemas para financiar a semeadura de primavera no hemisfério norte caso o país imponha limites à exportação de grãos e force os produtores a venderem a baixos preços domésticos, disse o diretor de um sindicato de produtores em entrevista.
Os produtores acumularam a dívida durante a crise financeira de 2008, que foi acompanhada por um excedente de safra de grãos em 2009 e depois, pela pior seca em décadas em 2010, que levou a Rússia a proibir a exportação por quase um ano.
A Rússia emergiu da proibição de 2010/11 posicionada para exportações recordes em 2011/12, com grandes estoques, porém, o embargo deixou os produtores em circunstâncias financeiras precárias e ainda com pesadas dívidas, que desencorajaram a semeadura de primavera deste ano.
Isso contribuiu para uma escassez de oferta criada pela seca deste ano, que reduziu a produtividade em quase 30 por cento, disse à Reuters o diretor do Sindicato de Produtores de Grãos, Pavel Skurikhin, também presidente do conselho de uma grande produtora baseada na Sibéria.
“Os bancos não foram capazes de financiá-los”, disse Skurikhin. “Tudo já havia sido comprometido”
Qualquer decisão do governo de impor restrições às exportações poderia ter o mesmo efeito este ano, advertiu ele.
Skurikhin é um participante regular nas reuniões da recém-formada comissão de segurança alimentar do governo, principal fórum de discussão política sobre potenciais restrições de oferta.
A comissão é presidida pelo vice primeiro-ministro Arkady Dvorkovich, que se opôs fortemente às restrições de exportação após reunião na última sexta-feira. Porém, traders acreditam que uma restrição pode ser anunciada em outubro.
“Eu gostaria de evitar restrições às exportações. Elas podem deixar os produtores fora da semeadura de primavera (do hemisfério norte)”, disse Skurikhin.
Caso um limite seja imposto, os preços domésticos devem cair, deixando os produtores com poucos fundos e menor apetite para a campanha de semeadura de primavera.
“Se evitarmos usar métodos de fora do mercado para influenciar o mercado, vamos criar estímulos para semeaduras de boa qualidade na primavera.”
Skurikhin estimou que as dívidas do setor, acumuladas por quase quatro anos, estão maiores que a receita agrícola anual, em 1,5 trilhão de rublos (46 bilhões de dólares).
“As medidas de suporte do governo estão sendo discutidas agora, mas esses empréstimos já foram prorrogados duas vezes, em 2008 e 2010”, acrescentou ele. “Não há motivo para prorrogar uma terceira vez.”
Antes da seca, a Rússia esperava atingir a safra do ano passado de 94 milhões de toneladas. O sindicato de produtores de Skurikin foi um dos primeiros a sugerir que a colheita russa pode cair abaixo das estimativas oficiais, para 70 milhões de toneladas.
Fonte: Reuters